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Oi para todas(os) de The L Word BR! Estou de volta para conversar sobre alguns aspectos presentes em Tina Kennard,
que em L Word ficou conhecida como a mulher/esposa/parceira de Bette Porter.
Uma coisa gostaria de dividir com vocês: revendo os episódios para "entrar em Tina" desfiz uma idéia que eu tinha
pré-concebida a respeito dela - a de que ela era uma pessoa "passiva". Isso se entendendo o termo passividade
como sem ação, sem postura, enfim sem atitude.
Logo no Piloto da série encontramos Tina tendo um posicionamento ativo frente aquilo que julga desejar - no
caso a constituição de uma família com sua companheira. Isso ela reafirmou durante a consulta com Dan Foxworthy,
quando foi buscar, com Bette, a "coleta" de Sean (o primeiro doador para a inseminação, que acabou não
acontecendo), até mesmo quando "aceitou" o doador encontrado por Bette e foi com ele até o banco de esperma.
Não dá pra deixar de mencionar a discussão que ela tem com Bette a este respeito no The Planet, quando ela se
diz incapaz de ser mãe de uma criança meio "afro-americana" - apesar desta atitude denotar muito mais o quanto
ela ainda estava confusa e idealizando a gravidez.
Em diversas falas de Tina foi possível perceber que ela se posicionava - irei pontuar meu comentário com elas
durante este artigo.
"Isto não está em discussão" Tina diz a Dan Foxworthy quando perguntada sobre a inseminação, mencionando
que tinha saído do emprego em que estava (um cargo executivo) para "preparar o corpo para a gravidez". Ela
responde a isso sem olhar para Bette, foi automático, foi dela a expressão desse desejo, o da maternidade.
"É isso o que estou fazendo. Estou pronta para começar uma família." Novamente em seu discurso Tina expressa algo
seu, algo que ela deseja (ou crê desejar)..
Quando falo em "crê desejar" significa que na vida de cada uma de nós existem "desejos", inúmeros... Entretanto
muitas vezes nos damos conta que o "desejo inicial" na verdade estava encobrindo algo mais, uma vez que é do
humano sempre estar em busca de novas "satisfações".
Divagando em cima do que Tina diz desejar, posso supor que seu desejo mais aparente seja atenção. Ter a atenção
da mulher que ama que, quem sabe com um filho, fruto da união das duas, chegue mais cedo do museu, seja mais
companheira enfim... Isso pode ser observado mais para adiante quando ela, ao perceber o desagrado de Bette, por
não ter sido a primeira a saber de sua gravidez no Ep. 04 - Lies, Lies, Lies, diz "Mas à vezes preciso de alguém para
compartilhar, isso é errado?"
Falando sobre o relacionamento Tina-Bette, uma fala de Tina que me chamou a atenção no mesmo episódio
(Ep. 04) foi quando ela, durante uma conversa com Alice e Kit, diz: "Farei tudo certo. Serei tão comprometida com
isso quanto Bette é com o trabalho". Sabe-se desde o Piloto que este era o desejo manifesto de Tina - ficar grávida
e constituir uma família com Bette. Mas... há um "quê" de queixa aí. Tina, ao comparar o quanto ela seria
comprometida com a sua gestação não deixa de revelar, em seu discurso, o quanto se sente em segundo plano
em seu relacionamento com Bette. E isso aparece em diversas vezes, onde Tina claramente dá a entender que se
"sacrifica" pelo seu relacionamento - ao ter deixado uma carreira em ascenção, ao não sair com as amigas para ficar
ao lado dela (no Piloto quando recusa o convite de Alice, por telefone, para ir à apresentação que Bette conduziria),
ao ter aceitado encontrar o pai de Bette (o qual sabia que não aprovava a união das duas).
Há um outro lado nessa postura, que é perceptível no Ep. 06, Losing It. Tina, ao ser confrontada pela namorada
chinesa de Marcus Allenwood (que fez a doação no banco de esperma) desmonta e vem à tona a sua fragilidade.
Esta fragilidade se expressa na dependência da esposa, que tinha assumido o papel de provedora dentro do
relacionamento. Tina se assusta (confesso que eu também me assustaria com uma maluca daquelas!) e todas
as amigas vêm ficar com ela. No final do episódio, tem-se a impressão de que tinha sido "muito barulho por nada".
Bette, que estava em Nova York, voltou no primeiro vôo preocupada com Tina que, com uma expressão até meio
aparvalhada, tenta justificar tudo com os "hormônios da gravidez". Novamente a palavra surge - gravidez. Seria este
um Significante para Tina?
Significante, a grosso modo, pode ser entendido como algo que traz em si um elemento metafórico o qual, sendo
"decifrado", mostra o modo de funcionamento da pessoa. Por exemplo, o peso que a palavra "gravidez" tem para
mim certamente é diferente do que este termo tem para Tina Kenard, objeto deste artigo.
Falando nisso, observando o comportamento de Tina a este respeito, após o sucesso que ela alcançou neste intento,
pode-se inferir uma fixação, seguida de muitas fantasias idealizatórias. Traduzindo: Tina ficou tão fixada na sua
gravidez que só isso enxergava. Os enjôos matinais, a ioga, os assuntos de grávida (aquela cena das amigas - Alice,
Dana e Shane - relatando a enquete que ela fez sobre calcinhas de gestante foi hilária! - ep. 07 - L'Ennui). Chegou
a um ponto que nem enxergou mais Bette como uma mulher, que precisava também de sua atenção. Enfim, Tina
encarnou a matriz "mamãe-bebê", esquecendo-se do mundo ao seu redor.
E, comentando mais um dos aspectos presentes em seu relacionamento com Bette Porter, ela se ressentiu
com o distanciamento da parceira, o que pode ser observado no ep. 09 - Luck Next Time, durante a chegada da
banheira, que ela tinha encomendado sem ter falado nada a Bette. As duas, deitadas na cama, e Tina diz "antes
eu sentia que você tinha tanto orgulho de estar comigo e isso fazia com que me sentisse realmente segura e
amada". É até interessante ela se dar conta do distanciamento delas duas nessa fase do seriado, talvez as sessões
de terapia em grupo tenham auxiliado nesse início de fase, que tem um ponto de crise - o seu aborto espontâneo,
como marco fundamental de uma tentativa de "reerguimento" pessoal.
Tina, como acabei de comentar, após um evento traumático (aborto), passou a buscar algo em que se apoiar.
E isso ela encontrou com o trabalho voluntário na instituição que Oscar coordena. Um aspecto muito importante:
ela se permite entrar em contato com seus sentimentos, isso é perceptível ao longo dos episódios, o que faz um
contraponto com sua parceira que possui enorme dificuldade em fazê-lo. Após o aborto ela vivenciou a perda, sofreu,
expôs isso, sendo que só depois é que saiu em busca de outros rumos, mesmo que temporários. Isso não significa
que estes rumos dêem conta da falta que há nela, enquanto um ser faltante...
A partir do instante em que ela se envolveu com o trabalho, e, seguindo o que ela tinha dito a Bette no ep. 09
(na mesma hora que citei acima) passou a se "centrar em si mesma para não se assustar", Tina passa a tentar ver
a si mesma, a se dar a oportunidade de viver algo além (talvez como um modo de lidar com a angústia de uma perda
tão importante como foi o do filho que esperava), o que assistimos no ep. 11, Looking Back, durante sua viagem com
as amigas para Palm Springs.
Um último comentário, sobre Tina e a sua reação frente à infidelidade de Bette. Pensando em Tina como a "parte
emotiva" do casal, ou melhor escrevendo, a parte passional (a que expõe mais seus sentimentos), seria no mínimo
estranho imaginá-la sentando numa mesa para "conversar sobre isso" com Bette! Uma reação explosiva em uma
pessoa que durante tantos anos construiu em si a certeza da "eternidade" de seu relacionamento é bem mais possível
de ser esperada. Se com o aborto foi a quebra de um sonho, um desejo repleto de idealizações, com a traição
acontece o despedaçamento de toda uma realidade - que certamente possuía em seu bojo inúmeras idealizações,
esperanças, desejos... todo um projeto de vida que Tina vê naufragar e que, penso, durante a segunda temporada
ela irá se implicar como co-responsável deste naufrágio e crescer muito com o que vier a aprender daqui por diante.
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