Dri (Pandy no Canal) tem 30 anos, é psicóloga e mora na cidade de São Paulo.

No Divã
BETTE PORTER - A "Muralha"?
Bette Porter


Inaugurando este espaço, que pretende se tornar um ponto de reflexão sobre os "n" aspectos presentes nas personagens e nas questões por elas abordadas, irei escrever sobre uma das "peças-chave" do seriado: Bette Porter.

A personagem traz dentro de si um conflito entre o demonstrar e o ser, talvez por ter se cobrado sempre uma postura ativa e atuante perante os outros. Observando o pouco que foi mostrado da sua relação com o pai, talvez possamos supor que esta postura tenha sido incentivada e cobrada por ele desde a infância (recordem-se de quando ele discute com ela, no Ep. 05 - Lawfully, afirmando que ela tinha sido criada para ser uma vencedora, o primeiro lugar em tudo...). Esta ambivalência é velada por sua postura, tão aparentemente voluntariosa e confiante, ou seja, Bette em princípio não deixa transparecer suas fragilidades, suas dúvidas, seus medos.

Mas seria superficial afirmar que se trata apenas disso. Há sempre um "porquê" atrás das posturas, do que é dito e do que não se é dito através das palavras... E Bette ao demonstrar força não deseja apenas encobrir suas fragilidades. Além disso, busca encobrir o seu desejo de proteção, de que alguém se preocupe com ela, que não "dê apenas presentes práticos" (Ep. 09, quando lhe mandam flores no Museu), que, enfim a olhem como uma mulher...

A primeira impressão que se tem dela é a de uma muralha, todo-poderosa, com um papel de liderança e de bom senso dentro do grupo de amigas (Ep. 03 - Longing, onde Alice pergunta a ela o que fazer com Gabby). Dentro do seu relacionamento também assume a liderança e as responsabilidades financeiras do casal. Como curadora do C.A.C. (Centro de Artes da Califórnia), tem uma atuação agressiva, autoconfiante, batalha pelo que quer (Ep. 03, em sua jornada atrás de Peggy Peabody) e nos primeiros episódios do seriado ela consegue tudo. O que demonstra querer pode ser bastante diverso do que é seu desejo. Porque quanto mais se reforçam as conquistas do "eu" (Ego ou Moi) maior é a distância do que se deseja (Isso ou Je) - apesar de que o sofrimento mesmo do neurótico é dar voltas e voltas atrás daquilo que julga querer (e que no fundo não é aquilo que quer!).

Um outro aspecto que chama a atenção em Bette é a sua relação com o tempo. Parece que ela pretende se adiantar ao relógio, pois sempre a vemos apressada, atarefada, sempre correndo... Onde se pode inferir também essa fuga do seu desejo, pois se corre tanto certamente é de alguma coisa! Será um modo de expressão da angústia essa pressa toda? Será negação? Será simplesmente pressa? Será tudo isso junto?

A partir do Ep. 08 - Listen Up, Bette começa a participar de um grupo terapêutico com Tina. No final do episódio há um momento em que ela se permite entrar em contato com essa angústia ("o que está acontecendo comigo?", "estou entrando em pânico?"). Este episódio inicia o que denomino como a "queda da Muralha", porque em seguida acontecem duas situações que, em minha opinião, provocaram uma espécie de rachadura nesse Eu Ideal que foi tão bem construído pelo seu psiquismo: o aborto de Tina e o ataque de Fae Buckley e sua Coalizão de Cidadãos Preocupados contra a exibição de Provocações no C.A.C.

Numa sessão do grupo, após o aborto, Bette mais uma vez resiste a mostrar seu sofrimento ao dizer que "não precisa chorar" - inclusive não a vemos demonstrando se sofreu com isso (apesar de se inferir que sim, certamente sofreu, mas por esse histórico de "bancar a fortaleza" suas defesas a salvaram de ruir diante dos outros).

Falando um pouco sobre seu relacionamento com Tina. Pelo que sabemos as duas estão comprometidas há 7 anos em uma relação estável e, diante de todos, um exemplo a ser seguido (atentem para o comentário de Dana a Tina sobre elas terem marcado uma consulta com um terapeuta, logo no início do Pilot: "mas vocês são o melhor casal, gay ou hétero que eu conheço!").

Mas... o que vemos em seguida? A primeira cena que mostrou que as duas estão vivenciando uma situação de desencontro foi a consulta com o terapeuta. A cena mostra Tina sentada, esperando Bette, que chega correndo. Durante a sessão, quando o terapeuta as questiona sobre a qualidade de sua vida sexual e relaciona isso com a inseminação, Bette o desafia, dizendo que ele não entenderia jamais o que acontece num relacionamento lésbico sendo um homem hétero e Tina rebate comentando que muitos casais resolvem ter filhos em momentos de crise. Logo em seguida a sessão acaba e Bette, com alívio, vai embora carregando Tina consigo.

Bette atribuiu a si mesma (ou lhe foi posto) o papel de provedora, situação totalmente condizente com as suas outras atitudes externas. Mas, ao tomar para si este papel, Bette sofre. Isso é perceptível na sua cobrança por total exclusividade (a sua reação ao perceber que não tinha sido a primeira pessoa a saber da gravidez de Tina no Ep. 04) bem como nas queixas que faz (por exemplo sobre Tina ter contado a Kit sobre a presença do seu pai na cidade no Ep. 05). Percebe-se que ela é possessiva, apesar de dar sinais em vários momentos que não valoriza a sua companheira, o que faz com que se retorne à questão da ambivalência de Bette Porter. Retomando a cena no Ep. 08 em que ela se questiona sobre o seu pânico, há também uma pergunta: "estarei me desapaixonando pela Tina?"

Inserindo um aspecto ligado à Bette, percebe-se que Tina inicia uma espécie de renascimento (do "eu", não da sua estrutura de personalidade), após começar a trabalhar com Oscar, o que torna a distância das duas mais evidente para ambas, sendo que em Bette o impacto parece ser maior por sua fragilização, pela sensação de "perda de chão" - isso começou de forma sutil com a rejeição do pai à gravidez de Tina, caminhando a passadas maiores com a tentativa das duas se "fundirem" (elas no ep.07 – L’Ennui falam apenas da gravidez, que se torna o ponto de fusão do relacionamento, transformando-as essencialmente em “mamães”), seguindo adiante com os ataques à Provocações feitos por Fae Buckley, o aborto inesperado de Tina... Estas situações agiram como um sinalizador, colocando a personagem no "olho do furacão", isto é, de encontro a uma outra Bette, da qual ela nada quer saber, a Bette faltante.

Um aspecto polêmico antes de encerrar a coluna! O que aconteceu entre Bette e Candace pode ser entendido como uma busca desesperada por apoio. Candace a encontra em crise, suas defesas já não fazem o mesmo efeito. Bette se encontra num "papel" que não lhe é peculiar, muito estranho. Penso que ter escutado "não é sempre que pode ficar no controle de tudo" fez com que ela entendesse algumas coisas sobre si. Bette se deixa seduzir, o que faz com muita culpa. E o que a impede de encerrar a história é essa mesma culpa que a direciona a "quebrar a ponte" (expressão usada por sua irmã Kit no Pilot), a terminar o seu relacionamento, coisa que ela não quer - o que é perceptível no seu desespero no chuveiro onde é Tina que se oferece para cuidar dela, após ela ter pedido que tentassem outra gravidez logo que possível. Bette em ruínas...Eis como termina a primeira temporada de The L Word (a primeira de muitas, espero!).

VEJA TAMBÉM:

The L Word News
Últimas notícias do mundo The L Word.

Provocações
Questionamentos provocados por The L Word

The Law Word
As leis brasileiras e a mulher lésbica.



No Divã - Artigo da Semana
Dana Fairbanks - Em Busca de Si Mesma, por Dri.

Outros artigos:

"Eu não curto relacionamentos..." , por Dri.

Conectando-se com Alice Pieszecki, por Dri.

Tina Kennard e o desejo da fusão, por Dri.

Escolha, medo e angústia: a autenticidade de Jenny Schecter, por Sophia Geliebte.